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Retórica de Bolsonaro, tensões diplomáticas devem marcar semana; leilões de linha no radar

Por TradersClub
20 maio 2019 - 11:14
Estados e municípios, governo Bolsonaro

A semana começou na sexta-feira à noite, após o presidente Jair Bolsonaro compartilhar um texto que acusava grupos poderosos na política de supostamente resistir ao seu governo. Ele continuou na mesma linha de atacar o establishment político e pedir o apoio da militância ao longo do fim de semana, sensivelmente acuado pelo avanço das investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro sobre seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, e pelo fato que, em mais de cinco meses de governo, ainda não conseguiu aprovar nenhuma iniciativa do seu programa no Congresso. O ambiente ficou ainda mais confuso, na mesma noite de sexta-feira, após um comentário do presidente da Comissão Especial para a reforma da Previdência na Câmara, Marcelo Ramos, de que os parlamentares apresentariam um texto próprio para a iniciativa – desafiando o governo.

Desmentido por aliados e interlocutores, Ramos, que já verbalizou em várias ocasiões sua animadversão ao governo Bolsonaro, criou uma confusão danada. Isso, porque lançou dúvidas sobre a firmeza do acordo que o mercado assumiu que existia entre o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, quanto à necessidade de aprovação da reforma e o escopo da economia fiscal do projeto. Hoje, segunda-feira, veremos a repercussão desses fatos no mercado: em meio a um ambiente externo pouco propício para os negócios, com maior tensão geopolítica entre o Irã e os Estados Unidos, cujo governo tampouco acerta os termos básicos de um acordo comercial com a China, o investidor deverá ponderar qual risco pode impactar mais sua carteira e como deverá se proteger dessas adversidades.

Existem muitas interpretações sobre a situação atual, que é grave. Mas a que impera entre parlamentares e analistas políticos consultados pela TC News é que a manobra do governo de demonizar os poderes Legislativo e Judiciário é uma aposta arriscada, que empareda a democracia, instala o caos institucional e coloca em risco, especialmente, as reformas econômicas que o país precisa para não quebrar. A atitude de Bolsonaro – que incluiu reproduzir textos de um filósofo francês nas redes sociais e beijar crianças na porta do Palácio da Alvorada no domingo, em tese, é uma declaração de guerra ao status quo. Para quê? Em meio a tanta incerteza, o investidor agradece que o Banco Central decidira agir após o câmbio romper a barreira psicológica dos R$4,00 e tocar os R$4,10, com a realização de três leilões de linha sucessivos – hoje, amanhã e quarta-feira – no total de US$3,75 bilhões. O leilão não é mais que uma venda de dólar com compromisso de recompra.

Tem um elemento que deve piorar o sentimento reinante no pregão brasileiro: os ativos de risco mundo afora abriram o dia no vermelho, refletindo os desdobramentos, quanto a suspensão, pelos EUA, da utilização de produtos da empresa Huawei no setor das telecomunicações e de tecnologia do país. Google, Intel e Qualcomm são algumas das companhias que decidiram romper relações comerciais com a Huawei, vista pelo governo americano como um braço de espionagem do regime chinês. O cenário global, pois, demanda cautela, especialmente com o acirramento das tensões EUA-Irã. Ontem, o presidente dos EUA, Donald Trump, tuitou: “Se o Irã quer brigar, será o fim oficial do Irã. Não ameace os Estados Unidos de novo”. Trump se pronunciou horas depois que o comandante-chefe da guarda da revolução islâmica, o major-general Hossein Salaim, disse que o Irã não teme uma guerra. Petróleo sobe, ouro recua, rendimentos dos Treasuries avançam e as bolsas europeias, assim como os futuros dos índices americanos, caem.

Hoje devemos ter uma bateria de reuniões de Bolsonaro com veículos da mídia e grupos de empresários. A base de Bolsonaro, que planeja uma manifestação em seu apoio para 26 de maio, pode trazer mais ruído ao noticiário de hoje com berros e promessas de caos; também teremos a divulgação do relatório Focus do BC e os números de arrecadação federal. Mundo afora, hoje haverá discurso do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, e o vencimento de opções sobre ações, que deve colocar mais pressão ainda sobre a bolsa. Para a semana, fique de olho no IPCA-15 de maio, a prévia da inflação oficial no país, que será conhecido na sexta-feira. Lá fora, a agenda destaca a ata da última reunião do Federal Reserve, o banco central americano, na quarta-feira, que terá também discurso do presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi. E, na quinta-feira, os investidores se debruçarão sobre números do PIB da Alemanha e da Zona do Euro, além de dados de imóveis e atividade nos EUA.


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