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Ibovespa perde 1,66% precificando o avanço do coronavírus e a agenda de reformas

Por Pablo Vinicius Souza
20 fevereiro 2020 - 19:02

O Ibovespa encerrou em forte queda nesta quinta-feira (20), com os investidores avaliando os impactos do coronavírus e o andamento da agenda de reformas no Congresso.

Na manhã de hoje, a Comissão Nacional de Saúde da China comunicou a morte de mais 114 pessoas, somando aproximadamente 2.118 casos de óbito pela doença.

Ao todo, o número de infectados já ultrapassou a faixa de 74.670, porém, 4.920 pessoas ainda estão sendo monitoradas sob suspeita de contaminação.

Embora o avanço do Covid-19 esteja desacelerando no território do gigante asiático, hoje, o Japão reportou duas vítimas fatais pela doença e a Coreia do Sul confirmou a primeira morte no país.

Tentando dimensionar os efeitos da epidemia para as principais economias do mundo, o mercado optou por ajustar posições, buscando segurança em ativos mais líquidos e menos voláteis.

O mau humor dos índices internacionais ofuscou a decisão do Banco do Povo da China (BPoC) em reduzir a taxa básica de juros em 0,10%, passando de 4,15% para 4,05% ao ano.

Nem mesmo a sequência de estímulos econômicos anunciados por Pequim foi capaz de aliviar o pessimismo que derrubou as Bolsas ao redor do mundo.

Em Wall Street, o Dow Jones fechou em queda de 0,44%, o S&P 500 declinou 0,37% e o Nasdaq Composto recuou 0,67%.

No Brasil, as nuances da cena doméstica adicionaram volatilidade às negociações, sobretudo, no que tange à continuidade da agenda de reformas.

Sob forte pressão política, o governo decidiu adiar o envio da proposta da reforma administrativa aos parlamentares, deixando a análise do texto para depois do Carnaval.

Além disso, há sérios entraves ao avanço da reforma tributária, que está sendo analisada em partes e carece de consenso entre a equipe econômica e as casas legislativas.

Também ficou no radar, a decisão do Banco Central de reduzir a alíquota do recolhimento compulsório sobre depósitos a prazo das instituições bancárias, caindo de 31% para 25%.

A medida deve resultar na liberação de R$49 bilhões em recursos já a partir do dia 16 de março, gerando maior liquidez ao mercado interno.

Na esteira dos resultados corporativos, o destaque vai para as ações da Petrobras (PETR3/ PETR4), que obtiveram perdas expressivas depois de registrar o maior lucro da história.

As companhias Ultrapar (UGPA3), Gerdau (GGBR4) e Pão de Açúcar (PCAR) apuraram as maiores baixas do índice geral, após divulgar resultados corporativos decepcionantes.

Como resultado, a Bolsa brasileira caiu 1,66% aos 114.586 pontos, com um volume financeiro de R$19,647 bilhões.

Dólar fecha a R$4,39 e alcança novo recorde histórico

O dólar comercial subiu 0,64% nesta quinta-feira (20), fechando na cotação de R$4,3930 na venda, renovando o seu recorde histórico.

Acompanhando o clima de aversão ao risco nos mercados internacionais, a divisa americana voltou a avançar contra as principais moedas emergentes e atreladas às commodities.

De maneira diferente do que vem ocorrendo nos últimos pregões, o real não apresentou as maiores perdas contra o dólar, ficando atrás do peso mexicano (1,43%) e do peso chileno (1,37%).

Embora o ritmo de novos casos de coronavírus na China tenha desacelerado, outros países começaram a reportar o aumento do número de mortos e infectados.

Na manhã de hoje, o Japão anunciou duas vítimas fatais da doença e a Coreia do Sul informou a primeira morte em seu território.

O agravamento dos doentes japoneses piorou o cenário de recessão na terceira maior economia do mundo, além de provocar um recuo acentuado no iene.

A moeda japonesa disputa ao lado do real o posto de divisa com o pior desempenho em relação ao dólar, acumulando quase 2% de desvalorização semanal.

Os investidores seguem atentos às sinalizações do Banco Central para uma nova intervenção no câmbio, apesar de a autoridade classificar a medida como excepcional.

Embora a divisa americana esteja em plena trajetória de alta, não há sinais de movimento especulativo no cenário interno, tendo em vista que, o mesmo comportamento foi observado também em outras moedas pares do real.

Juros Futuros

Na renda fixa, os contratos de juros futuros encerraram com elevação nas taxas em todos os períodos, sobretudo nos vértices mais longos da curva, que seguem a dinâmica cambial.

Apesar do viés de alta, os números benignos da inflação mensurados pelo IPCA-15 limitaram a recomposição do prêmio de risco, já que evidenciam um cenário de Selic baixa por mais tempo.

O DI setembro/2020 subiu para 4,15% (4,14% no ajuste anterior), o DI julho/2024 saltou para 5,85% (5,82% no ajuste anterior) e o DI janeiro/2027 avançou para 6,46% (6,37% no ajuste anterior).

Petróleo fecha em alta refletindo o cenário internacional

Os contratos futuros de petróleo encerraram em alta nesta quinta-feira (20), alcançando o maior valor registrado desde o final de janeiro.

O petróleo vendido em Nova Iorque no West Texas Intermediate (WTI), com entrega para março, saltou 0,91%, no preço de US$53,78 o barril.

Já o petróleo Brent comercializado na ICE de Londres, para entrega em abril, subiu 0,32%, fechando na cotação de US$59,31 o barril.

Na sessão de hoje, múltiplas variáveis do cenário internacional convergiram para apoiar a valorização dos preços da commodity.

O movimento de recuperação ganhou impulso inicial com o governo chinês anunciando a aplicação de mais estímulos para conter o avanço do coronavírus e assegurar o crescimento da economia.

Adicionalmente, os problemas com a produção de óleo bruto na Líbia e as restrições impostas à Venezuela também pressionaram o salto das cotações.

Os investidores ficaram animados pois, em ambos os casos, os desdobramentos implicam diretamente na redução da oferta global de petróleo e isso pode ajudar a conter um possível cenário de excesso.

Outro fato que repercutiu positivamente foi o relatório do Departamento de Energia americano (DoE), afirmando que os estoques da commodity subiram apenas 415 mil barris na semana passada.

Os especialistas consultados pelo Wall Street Journal previram um aumento de 3,4 milhões de barris no período, de modo que o resultado renovou os ânimos do mercado.

Noticiário Corporativo: Após divulgar lucro de R$26,9 milhões no 4º tri, Marfrig pode abrir capital nos EUA

A Marfrig (MRFG3) divulgou os resultados do quarto trimestre, evidenciando um lucro líquido de R$26,9 milhões, após reverter o prejuízo de R$1,25 bilhão apurados no mesmo período do ano passado.

De outubro a dezembro, a receita líquida da companhia alcançou o total de R$14,2 bilhões, apresentando um crescimento de 23,5%.

O Ebitda (lucro antes dos juros, depreciação, amortização e exaustão) atingiu R$1,6 bilhão no período, avançando cerca de 8,6% em comparação a 2018.

Ao longo de 2019, a divisão de negócios na América do Norte passou por uma forte expansão e a região fechou o exercício contribuindo com 61% da receita total da empresa.

Nos Estados Unidos, onde possui três frigoríficos, se concentrou a maior rentabilidade, enquanto o Brasil respondeu por apenas 10% e a China retornou cerca de 14%.

Segundo o principal acionista e presidente do conselho de administração da Marfrig, Marcos Molina, a empresa pretende estar pronta para abrir seu capital nos EUA, o seu maior mercado.

Embora o executivo não tenha determinado prazos para que isso aconteça, ele citou algumas vantagens de listar as ações na maior economia do mundo, como os incentivos à recompra de ações e o custo de capital mais baixo.

A companhia brasileira controla a National Beef, o quarto maior frigorífico de carne bovina nos EUA, que representou 70% da receita líquida registrada em 2019, somando R$50 bilhões.

Molina também ressaltou que o mercado americano avalia melhor as empresas, agregando múltiplos (relação entre valor empresarial e Ebitda) mais altos, por isso, a Marfrig precisa se preparar.

Na avaliação do Bradesco BBI, a rede de frigoríficos vem apresentando potencial de expansão, sobretudo em relação à habilitação de suas unidades produtivas para exportar carnes para a China.

Por isso, os analistas seguem com a recomendação de compra para as ações, elevando o preço-alvo de R$12 para R$14, considerando os resultados mais fortes e a redução dos níveis de alavancagem.


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