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Como governos reagem à mudança climática: uma entrevista com os teóricos políticos Joel Wainwright e Geoff Mann

Por Pablo Vinicius Souza
25 janeiro 2019 - 08:00
velha política

No primeiro dia do ano, o populista de extrema-direita Jair Bolsonaro assumiu o poder no Brasil, representando uma ameaça urgente aos brasileiros e ao planeta. Bolsonaro prometeu abrir a Amazônia para o desenvolvimento e o desmatamento acelerados, o que levaria à liberação de grandes quantidades de carbono na atmosfera, bem como à destruição de uma das armas mais potentes da Terra contra o aquecimento global. Assim como o presidente Trump, Bolsonaro está tomando decisões ambientais que poderiam ter consequências terríveis muito além das fronteiras nacionais.

Em Climate Leviathan: A Political Theory of Our Planetary Future, Joel Wainwright, professor de Geografia na Ohio State University, e Geoff Mann, diretor do Center for Global Political Economy na Simon Fraser University, consideram como abordar esse problema de dimensões globais. Eles analisam diversos futuros políticos para nosso planeta em aquecimento, e argumentam que uma ordem internacional mais ampla – um “Leviatã do Clima” – está emergindo – embora seja improvável que reduza o aquecimento catastrófico.

Conversei recentemente com Wainwright e Mann por telefone. Segue abaixo uma versão editada e condensada de nossa conversa.

O aquecimento global muda fundamentalmente a forma como vocês avaliam a política internacional, a soberania e a ideia de Estado-nação, ou é apenas mais evidência de uma crise que já existia?

Wainwright: um dos argumentos presentes em nosso livro é que, sob pressão pelo desafio crescente da mudança climática, podemos esperar mudanças na organização da soberania política. Será uma das primeiras grandes mudanças enfrentadas pelos seres humanos desde a emergência do que nós, às vezes, consideramos o período moderno de soberania, como teorizado por Thomas Hobbes e outros. É muito provável que, após um período de muitos conflitos e desafios graves à ordem global existente, veremos a emergência de algo que chamaremos de soberania planetária.

Sob tal prisma, é racional analisar o período atual de crise das democracias liberais ao redor do mundo e a emergência de figuras como Bolsonaro, Trump e o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, como sintomas de uma crise mais generalizada, cujas ramificações atingem as áreas ecológica, política e econômica. Talvez isso não responda à sua pergunta, que busca encontrar uma variável causal. O que vem primeiro – o ecológico, o político ou o econômico? – é difícil dizer, pois tudo está interligado.

Mann: creio que já estamos vendo, em sua forma emergente, diversas mudanças no que pensamos ser um Estado-nação soberano. Parte dela é super-reacionária – alguns grupos estão tentando torná-lo mais forte e incólume do que jamais foi. Outros tipos de forças estão levando-o a se desintegrar, ambas de formas que podemos considerar negativas, tal como muitas coisas que estão ocorrendo na União Europeia, mas também em outras formas que podemos pensar como positivas, no sentido de cooperação internacional. Há debate sobre o que fazer sobre migração climática, pelo menos.

Um dos fatos mais interessantes que está ocorrendo agora é que temos pouquíssimos meios políticos e institucionais e, diria, conceituais, para lidar com os tipos de mudanças que são exigidas. Todo mundo sabe da existência da mudança climática, e que ela piora a cada dia. Todo mundo está tentando combater os piores aspectos dela, porém, não estamos nos unindo nessa luta como todos pensam que deveríamos.

Creio que o Estado-nação seja uma das poucas ferramentas que as pessoas sentem ter e, portanto, estão se apegando a ele com todas as forças. Algumas pessoas estão tentando construir muros. Outras, tentando usar seus poderes para convencer terceiros a seguirem seus planos. Creio que temos tão poucas ferramentas para lidar com esse problema que o Estado-nação é usado como uma metralhadora atirando a esmo, tentando acertar alguém no processo.

Um dos aspectos mais deprimentes e assustadores disso é que o aquecimento global está exacerbando problemas econômicos, bem como problemas relacionados à migração e à questão dos refugiados, que estão, de fato, piorando a dinâmica política dentro desses países e abrindo caminho para pessoas como Trump.

Wainwright: creio que sua hipótese de um enfraquecimento cíclico da ordem liberal global seja potencialmente válida. Para ser sincero, não é exatamente o que Geoff e eu estamos dizemos no livro. Você pode estar certo ou você pode estar errado. Se você quisesse fortalecer tal hipótese, teria que esclarecer de que forma a posição autoritária, neoliberal, negacionista que vemos representada por figuras distintas – novamente, Modi, Bolsonaro, Trump – representa o oposto de outra coisa.

Parte da razão porque escrevemos esse livro – creio que Geoff e eu diríamos o mesmo – é que existe muita discussão em lugares como Canadá e Estados Unidos sobre a situação atual e a potencial, o que temos e o que precisamos, embora os fundamentos políticos e filosóficos da mudança climática sejam muito vagos. O que Trump e Modi representam, exatamente? De onde vem tal postura, e por que ela é tão claramente ligada ao negacionismo climático? De que forma tal loucura encapsula – ou o que nos parece louco e novo – está conectado ao sonho liberal de uma resposta racional à mudança climática, organizada em escala planetária?

Isso nos leva a alguns cenários que você expõe no livro, e por que você é tão pessimista sobre a ordem atual. Quais são esses cenários?

Mann: no livro, expomos o que pensamos ser os futuros possíveis. Eles são, de fato, amplos e oferecem margem de manobra, logo, variações são possíveis.

Um deles, que pensamos ser muito provável, é o Leviatã do Clima. Outro é o Mao do Clima – que seria um tipo de soberania, porém operando sob princípios similares a uma tradição maoísta, isto é, uma tentativa quase autoritária de corrigir a mudança climática ao colocar todo mundo na linha. Então, existe o Beemote do Clima (seu termo para ordem reacionária, fazendo referência, provavelmente, à criatura bíblica). Nós, quando iniciamos a redação do livro, tínhamos em nossa mente a caricatura de Sarah Palin, pois era a época do seu slogan eleitoral “perfure, cara, perfure”.

O último cenário chamamos de Clima X, e é o mais esperançoso. Acreditamos que o caminho para tratar a mudança climática não é através de encontros internacionais em grandes cidades ao redor do mundo. As tentativas de estados capitalistas liberais como Canadá e Estados Unidos de regular pequenas partes dos processos, implementar pequenos impostos sobre o carbono e tentar fazer pessoas comprarem painéis solares não é nem próximo do suficiente, nem coordenado o bastante pra nos livrar do problema de forma definitiva.

Penso que Joel e eu concordamos que o Clima X descreve toda uma série de propostas que não estão ligadas a esse conjunto falido de instituições. Com o Clima X veremos iniciativas ocorrendo em nível local e instituições refutando o estado totalmente – como tantos povos indígenas do Canadá prosperando e fazendo coisas por conta própria, construindo novas alianças, descobrindo formas inovadoras de gerir ecossistemas falidos e instituições políticas. Não vemos um mapa de tais iniciativas, e as tentativas de desenhá-lo até agora não tiveram sucesso. Nossa esperança é que possamos fortalecer o que já está ocorrendo em diversas comunidades.

A mudança climática me levou a pensar não apenas nos tipos de ação que são necessários, mas também se toda nosso marco moral deveria mudar. Eu não quero que os moradores de Bangladesh comecem a destruir usinas termelétricas chinesas, mas também penso que precisamos pensar sobre o que é certo e o que não é, pois isso o impacto ambiental é real.

Wainwright: concordamos totalmente com você. O que é notável é a disjunção entre o que qualquer observador imparcial entende ser realmente necessário ser feito rapidamente e o tamanho da incapacidade aparente dos arranjos político-econômicos do mundo de irem além do mais básico. Então, o povo em geral, bem como muitas “elites” estão se realinhando nessas estranhas combinações e produzindo figuras como Trump e Bolsonaro.

Quanto aos refugiados, existe um grande número de pessoas no mundo que, às vezes, são chamados de refugiados do clima. Ainda não existe uma definição internacionalmente aceita de refugiado do clima. Se adotamos uma definição razoavelmente abrangente de refugiado do clima como alguém que foi desabrigado, pelo menos, em parte, devido à mudança climática, existem provavelmente dezenas de milhões deles no mundo hoje, incluindo um número significativo em lugares como Honduras, Guatemala e México, que desejam entrar nos Estados Unidos, embora não falemos deles nesses termos.

Algumas estimativas são tão elevadas quanto 200 milhões de refugiados do clima em 2050, embora isso seja especulação, pois, na verdade, ninguém sabe. Poderia tranquilamente chegar a centenas de milhões se as expectativas de inundação em lugares como Bangladesh, Caribe e Indonésia se concretizarem.

Além disso, como dissemos, a presente ordem capitalista liberal falhou totalmente, e não podemos ficar de braços cruzados. As pessoas buscarão soluções para seus problemas noutros lugares. Fazendo uma grande generalização, elas não estão recorrendo aos recursos ideológicos do mainstream da modernidade liberal. Eles estão recorrendo a variações de metafísica religiosa e, frequentemente, a formas de fundamentalismo étnico e religioso. Daí a necessidade desesperada de desenvolvermos uma nova teoria política e novas ideias utópicas para esse momento.

Eu não creio que esteja totalmente errado, mas, pelo menos nos Estados Unidos, as pessoas dizem que não acreditam na mudança climática porque tem havido uma campanha sistemática de mentiras. Os documentos da Exxon estão virando ações judiciais a todo momento. É uma coisa dizer: “bem, essa é a falência da ordem liberal”, e as pessoas buscando alternativas, que creio ser positivo, mas também é verdade que as pessoas estão sendo enganadas, e talvez uma crítica ao capitalismo é que ele permite que pessoas como Rupert Murdoch moldem as percepções de grande parte da população.

Mann: você está certo, existe muita informação desencontrada na mídia, diversos esforços para ocultar a verdade, esconder a ciência, distorcer os fatos para levar as pessoas a adotar ingenuamente posições que não são apenas contra o interesse de todos, mas contra o seu próprio interesse, em prol do interesse dos poderosos.

É também o caso que essas questões são geralmente categorizadas, corretamente, diga-se de passagem, como questões de classe. Um aspecto de sua crítica ao capitalismo é a forma pela qual o capitalismo produz e reforça a divisão de classes, levando à situação em que diferentes facções da elite lutam pelo apoio das massas. Por diversos motivos, o problema pode ser atribuído ao fato de que muitos eleitores não acreditam na mudança climática, porém, eu diria que o problema realmente é um fracasso da ordem liberal que pode gerar uma situação em que, por um lado, isso pode ocorrer, mas por outro, as elites que controlam o estado podem acabar com todas as tentativas públicas de confrontar a mudança climática.

Mesmo aqui no Canadá, onde, é claro, os problemas são grandes, mas não tanto quanto nos Estados Unidos, temos um estado que diz estar totalmente comprometido com a questão da mudança climática, mas que está fazendo pouco mais que Trump. A situação indica que não é apenas uma teoria da conspiração que nos impede de alcançar qualquer coisa. Creio que o problema seja muito mais sistemático que isso.

Como você quer que as pessoas pensem e respondam às propostas de Bolsonaro para a Floresta Amazônica?

Mann: creio que tanto Joel como eu diríamos que os mecanismos mais eficientes estão dando apoio no Brasil aos que se opõem a Bolsonaro, e existem milhões e milhões. Às vezes, esquecemos que muitos líderes estão no poder com o apoio de muito menos que a metade da população, apenas por causa da forma como as eleições funcionam. Então, não significa que uma parte significativa da população do Brasil não está aterrorizada por Bolsonaro e fazendo tudo para detê-lo. Eu creio que nossa reação à distância, é claro, deveria levar em conta o fato de que não podemos reiniciar o imperialismo no interesse da mudança climática, mas podemos descobrir formas de apoiar aqueles que estão fazendo seu melhor para impedi-lo de acontecer.

Parte disso pode tomar a forma, é claro, de um boicote de consumidores, mas creio que, fundamentalmente, requererá alianças e suporte que alcance os estratos político-econômicos mais inferiores do Brasil. Descobrir como alcançá-los e ajudá-los, esse é um desafio em si para o Brasil.

Nós ouvimos muito sobre países ocidentais industrializados na época em que não sabíamos exatamente que a mudança climática estava ocorrendo, e nós do Ocidente enriquecemos muito. Agora, os países do resto do mundo querem passar pelo mesmo processo para aumentar o padrão de vida de seu povo, mas, ao mesmo tempo, sabemos que a mudança climática está ocorrendo. Estou curioso como vocês, esquerdistas, pensam sobre um cenário onde os países ricos começam a dizer aos países pobres o que podem ou não fazer, forçando-os a tal de diversas formas, mesmo a serviço de um fim que todos sabemos ser benéfico ao planeta.

Mann: tal cenário que você acabou de descrever é uma grande parte do que Joel e eu chamamos de Leviatã do Clima. Não é o que queremos, mas é um cenário provável.

Wainwright: eu diria que, hoje, as sociedades capitalistas centrais estão, de fato, dizendo aos países pobres e em desenvolvimento o que fazer com respeito a uma série de coisas. Mas seu encorajamento geral – seja através de política financeira, comercial, militar, etc – tende a ser na direção de explorar a extração de combustíveis fósseis e consumo. Não há como disfarçar que o governo dos Estados Unidos tem tido um grande papel na construção, reforço e proteção da indústria global do petróleo – Arábia Saudita é o exemplo mais atual. O que Geoff e eu queremos destacar, como uma alternativa ao imperialismo, é uma solidariedade transnacional antiquada em nome dos povos comuns ao redor do mundo, em nome da justiça climática. É disso que precisamos desesperadamente.

Nesse ponto da solidariedade transnacional e justiça climática, vale a pena analisar a encíclica Laudato Si do Papa Francisco, que provavelmente foi, em minha opinião, o livro mais importante sobre essas questões publicado em minha geração. Ao longo do texto, o papa Francisco reconfigura a teologia católica como um processo de forjamento de uma solidariedade planetária para a humanidade, para um mundo que ainda está por vir. Não somos católicos. George e eu não estamos citando diretamente Francisco e dizendo: “veja, o papa já sabe o que fazer”, mas estamos trabalhando e apontando numa direção semelhante.

Artigo original – The New Yorker: How Governments React to Climate Change: An Interview with the Political Theorists Joel Wainwright and Geoff Mann
Autor: Isaac Chotiner


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